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AMOR NEURODIVERGENTE CAP. 2 - O NEURODIVERGENTE E A IDEALIZAÇÃO DO AMOR

 


Neurodivergentes podem ter maior tendência a idealizar o amor, e é disto que vamos tratar neste post.

Idealização seria, basicamente, fantasiar uma pessoa, coisa, situação, condição, etc., "perfeita". No amor, a idealização seria a fantasia do que seria o parceiro afetivo perfeito, com base em nossas experiências de vida, expectativas, nossa cultura, etc.



A origem da idealização em neurodiversos



Normalmente, a idealização neurotípica com relação a pessoas, coisas, situações, etc., tem origem cultural. Por exemplo, um homem criado em uma cultura machista e conservadora pode idealizar uma esposa submissa, enquanto outro homem criado em uma cultura feminista e progressista pode idealizar uma esposa empoderada. Ou, ainda, uma mulher criada em uma cultura machista e conservadora pode idealizar um marido que faça o papel de provedor do lar, enquanto uma outra mulher criada em uma cultura feminista e progressista pode idealizar um marido que a ajude tanto nas tarefas domésticas quanto na administração do lar.

Os exemplos acima mostram um pouco como a cultura pode influenciar na visão que os neurotípicos têm em relação ao "par ideal" em seus relacionamentos. Mas, quando se trata de neurodiversos, ocasionalmente o neurodivergente pode idealizar em um parceiro afetivo características mais supérfluas, por assim dizer.




"Ela não gosta de dinossauros"



Na versão australiana da série "Amor no Espectro", gravada em formato de documentário/reality show, temos Mark, um participante que, na época das gravações da série, tinha 30 anos de idade. Mark idealizava um relacionamento com uma moça que gostasse de dinossauros, assim como ele (não sei se ele ainda idealiza um relacionamento assim, pois não sei o que aconteceu com ele após o fim do reality). 

Na prática, esta é uma característica supérflua, já que gostos em comum, embora sejam um bom ponto de partida para um relacionamento, não podem ser a única coisa que o sustenta. Muitas vezes, não encontraremos pares românticos que tenham os mesmo nível de interesse que o nosso em algum tópico (assunto, atividade, etc.), e precisamos saber lidar com isto. (Apesar que sou suspeito para falar, idealizo em uma [potencial] parceira afetiva uma característica específica que, se a minha [potencial] amada não tiver, sentirei muita falta. Mas, racionalmente, reconheço que esta característica é supérflua.)



Os perigos da idealização



É bom conhecermos alguém que tem os mesmos gostos, hobbies, etc., que os nossos? Com certeza! Mas, às vezes, acabamos perdendo grandes oportunidades de relacionamento por buscarmos pessoas com uma característica específica. 

Um exemplo: João tem hiperfoco em carros da Ferrari. Ele conhece todos os modelos de carros da Ferrari, detalhe por detalhe. Por ser tão aficionado pelos carros da Ferrari, João quer uma namorada que aprecie e conheça de carros da Ferrari tanto quanto ele. Ok, é legal ter alguém para conversar sobre gostos em comum, fazer atividades juntos relacionado a este gosto, mas não é um gosto em comum por si só que fará a relação durar e ser satisfatória para ambos. João pode, por exemplo, arrumar uma namorada que goste e entenda de carros da Ferrari tanto quanto ele, mas que não aceite suas peculiaridades neurodiversas, tentando adaptá-lo aos moldes comportamentais neurotípicos de forma forçada e desconfortável para ele. Então eu pergunto: vale a pena João suportar tudo isto apenas para ter uma namorada que aprecie carros da Ferrari tanto quanto ele? 

Mais uma vez, sou suspeito para falar, pois sofro muito só de pensar que a minha [potencial] parceira afetiva não possua esta característica específica que procuro. Mas, apesar disto, estou arriscando, e até criei uma página no Facebook para redirecionar potenciais pretendentes, mesmo correndo o risco de alguma delas (ou todas) não ter(em) esta característica.

A idealização de uma característica específica (ou um conjunto delas) pode ser muito prejudicial para nós, neurodivergentes, pois a maioria de nós, naturalmente, já tem dificuldades em iniciar relacionamentos afetivos com pares que nos interessam, dadas as nossas dificuldades e/ou peculiaridades na comunicação social. Já saímos em desvantagem em relação aos neurotípicos, que, em média, tendem a ter mais relacionamentos amorosos que nós, tanto pela maior habilidade social quanto por outras razões, que discutiremos em posts futuros. Focar em características específicas não essenciais de [potenciais] parceiros só limita ainda mais o nosso já limitado rol de possíveis parceiros, tendo em conta pessoas que [teoricamente] estejam interessadas em nós.

Caso seja difícil para você deixar de idealizar (ou idealizar menos) certas características do que seria o seu "par perfeito", é válido procurar ajuda profissional. Caso não haja ajuda profissional disponível e/ou acessível, é válido conversar sobre o assunto com pessoas de sua confiança, caso haja.



Exemplos de características não essenciais, mas que, eventualmente, acabamos idealizando





Músicos. É muito comum que as pessoas, principalmente as mulheres, idealizem um parceiro afetivo que sabe cantar e/ou tocar algum instrumento musical. 

Dançarinos. Pessoas que dançam um ou mais ritmos tendem a ser idealizadas como parceiros afetivos, pois a dança, assim como a música, tem um lado sedutor que atrai as pessoas.

Desportos. Outro tipo de pessoa comumente idealizada como parceiro afetivo são os desportistas, independentemente da modalidade. Isto porque os exercícios físicos são muito bons para a saúde e realçam o corpo, dando-lhe melhor forma. Em um primeiro momento, as pessoas tendem a se atrair por pares que estejam em melhor forma física.

Humoristas. Pessoas boas em contar piadas tendem a ser idealizadas como parceiros afetivos, pois todo mundo gosta de estar perto de alguém bem humorado e que sabe provocar o riso (de forma saudável, é claro) em outras pessoas.

Estes são alguns exemplos de pessoas que, por suas habilidades, são idealizadas como parceiros afetivos, porque, de alguma forma, isto cativa as pessoas.



Considerações finais



Não há mal algum em buscar um par romântico com gostos em comum, afinal, um dos princípios de um relacionamento afetivo bem sucedido é justamente ter alguém com quem possamos dividir bons momentos, o que inclui nossos gostos e/ou hiperfocos. Também não há problema algum em buscar um par romântico com alguma característica ou habilidade específica (como cantar, por exemplo), afinal, muitas destas características naturalmente cativam possíveis pares românticos. 

O problema é quando idealizamos demais uma característica (ou um conjunto delas) em um [potencial] par romântico, de modo que perdemos grandes oportunidades de conhecermos pessoas interessantes que também poderiam ser nosso par, apenas pelo fato de não possuírem uma característica específica e supérflua que buscamos. Além do mais, a busca incessante e descomedida por esta característica pode acabar nos colocando em problemas, como citei no exemplo fictício de João.

E você, neurodiverso? Também idealiza [potenciais] parceiros afetivos?




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